sexta-feira, 24 de dezembro de 2010



Hay hombres que luchan un dia y son buenos.

Hay otros que luchan un año y son mejores.

Hay quienes luchan muchos años y son muy buenos.

Pero hay los que luchan toda la vida: esos son los imprescindibles.



(Bertolt Brecht)

E aí então, quotando Fernando Pessoa,
em livro do desassossego,
diria que estamos cansados de termos sonhado,
pero nunca cansados de sonhar...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Seguimos deseando rosas!



"Que yo sepa, nadie está usando los elementos del aire que dan dirección y movimiento a nuestras vidas . Sólo los asesinos parecen extraer de la vida, en grado satisfatório lo que le aportan. La época exige violencia, pero sólo estamos obteniendo explosiones abortivas. Las revoluciones quedan sesgadas en flor, o bien triunfan demasiado deprisa. La pasión se consume rápidamente. Los hombres recurren a las ideas comme d'habitude. No se propone nada que pueda durar más de veinticuatro horas. Estamos vivendo un millón de vidas en el espacio de una generación. Obtenemos más del estudio de la entomología, o de la vida en las profundidades marinas, o de la actividad celular..."

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(Henry Miller, Trópico de Câncer)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010





Passamos boa parte do tempo desejando uma oportunidade para fazer valer a concepção do bom e do justo que assumimos e continuamos a assumir no decorrer da nossa vida. Alguns atuam. Outros apenas passivamente esperam o dia chegar. E aí, quando temos a oportunidade de realmente decidir, cambaleamos. Afinal, parte de um ponto zero é sempre um risco. Podemos acertar, mas também, quando caminhamos, podemos tropeçar e cair. Enfim, podemos errar. Mais do que isso, nossa concepção do bom e justo pode ser (e provavelmente será) diferente para as outras pessoas. Então nossos acertos podem ser tidos como meros fracassos, um “deu errado”. Mas, se no íntimo mantivermos sempre essa vontade-projeto libertário, de fazer o bem, de emancipação, já partiremos, desde o princípio, do certo, do bom e do justo.
E posso dizer que me orgulho de quem, dessa maneira, deixa o coração e o amor falar por si só, de quem mantem o coração puro, de quem não deixa que ele se corrompa. Além disso, de quem olha para frente, mesmo sabendo que existem milhares de pequenas pedras no trajeto, mesmo sabendo que a estrada de terra é cortada por muitos troncos caídos, mas também por límpidas aguas de riacho e uma boa sombra da copa das árvores sólidas que permitem um novo tomar fôlego quando se cansou. Seguir o caminho do coração é sempre seguir o caminho mais difícil e turbulento, mas também é o único caminho que permite ascender à verdadeira felicidade.
Sempre existirá uma luz no final do túnel, um farol em meio à imensidão do oceano, um ombro amigo para quem chora, a luz das estrelas por dentre as folhagens das matas verdes de brado alto. Finalizo o post com um incentivo e com toda a minha força de ajuda para os puros do coração darem um passo de cada vez, mas seguirem em frente, sem temor, e continuem a acreditar em si.

Devo dizer que, por um (espero eu curto) espaço de tempo, e por motivos pessoais, me silenciarei para preservar minha intimidade e a daqueles a quem amo. Continuarei, obviamente, a falar pelas vozes de outros e outras, por seus escritos que falam por si só, que falam por mim.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

L.ARTE: com saudades e carinho




Querido, você me dizer que eu te hizo entender que sabia el significado de saudades, pero que nunca lo habia sentido. Pero eu sinto. E como tem sido, ni espanõl, ni português. E repito lo que me foi dito, dentre los interditos, es increible las intuiciones que nos atraviesan, nos adivinamos y nos esperamos sin palabras como la Maga y Cortazar en Paris. Filho do mesmo pai, carrega consigo a mesma pequena medalha do peito, vencedor de demanda. Rezaste a los doce dioses del candomble que muevan los busios del destino. Agora eu rezo aos orixás para que te ajudem. Meu coração fala com amor. Paz, amor e esperança.

Beso en su corazon, daquela que era chamada de Maga.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um pé descalço





Decidi passar a tarde chuvosa lendo Pablo Gentili ao invés de me deitar no sofá para ver o filme que meu pai me trouxe ontem e que me animava muito, principalmente depois das várias indicações das amigas. Algo no livro me chamava, gritava pela minha presença. E assim, sem qualquer dúvida, decidi trocar a gargalhada certa, mas muda, por lágrimas de desespero profundo e alegria de força. Pablo começa um artigo mágico ao descrever seu passeio com o filho ao supermercado e conta que, ao ver um dos sapatos do bebe quase cair, retirou-o. Mateo ficou sentado no carrinho com apenas um sapato, apenas um pé coberto. E assim, ao andar pela rua, em todos os momentos Pablo foi alertado de que seu filho havia perdido um sapatinho. O contentamento do cuidado cedeu lugar, em pouco tempo, a um sentimento de tristeza. Na cidade do Rio de Janeiro, assim como em Florianópolis, a miséria convive com o luxo e a ostentação. O pé descalço - apenas um pé descalço - de um menino de classe média é motivo para uma excessiva preocupação, ao passo em que as milhares de crianças de dois pés descalços são esquecidas.
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"A possibilidade de reconhecer ou perceber acontecimentos é uma forma de definir os limites sempre arbitrários entre o 'normal' e o 'anormal', o aceito e o negado, o permitido e o proibido. É por isso que, enquanto é 'anormal' que um menino de classe média ande descalço, é absolutamente 'normal' que centenas de meninos de rua andem sem sapatos, perambulando pelas ruas de Copacabana pedindo esmolas.
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A 'anormalidade' torna os acontecimentos visíveis, ao mesmo tempo em que a 'normalidade' costuma ter a capacidade de ocultá-los. O 'normal' se torna cotidiano. E a visibilidade do cotidiano se desvanece (insensível e indiferente) como produto de sua tendencial naturalização.
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Em nossas sociedades fragmentadas, os efeitos da concentração de riquezas e a ampliação de misérias, diluem-se diante da percepção cotidiana, não somente como conseqüência da frivolidade discursiva dos meios de comunicação de massas (com sua inesgotável capacidade de banalizar o que é importante e sacralizar o que é trivial), mas também pela própria força adquirida por tudo aquilo que se torna cotidiano; ou seja, o 'normal'.
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Para dizer sem muitos rodeios, o que pretendo afirmar é que, hoje, em nossas sociedades dualizadas, a exclusão é invisível aos nossos olhos. Certamente, a invisibilidade é a marca mais visível dos processos de exclusão neste milênio que começa. A exclusão e seus efeitos estão aí. São evidências cruéis e brutais mostradas nas esquinas, comentadas pelos jornais, exibidas nas telas. Entretanto, a exclusão parece ter perdido a capacidade de produzir espanto e indignação em boa parte da sociedade. Nos 'outros' e em 'nós mesmos'.
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A seletividade do olhar cotidiano é implacável: dois pés descalços não são dois pés descalços. Um é um pé que perdeu o sapato. O outro é um pé que, simplesmente, não existe. Nunca existiu nem existirá. Um é um pé de uma criança. O outro é o pé de ninguém."
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(Pablo Gentili e Chico Alencar)
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Dois pés descalços são o símbolo da ameaça que se manifesta no silêncio do que está oculto, do que é ignorado e, ao mesmo tempo, temido como efeito do desespero e da pobreza, midiaticamente posto em índice de marginalidade e criminalidade.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

BEIJÓDROMO NA UNB

Beijódromo faz parte de um memorial na UnB; inauguração contou com presença de Lula
http://www.midianews.com.br/?pg=noticias&cat=8&idnot=36945 R7

Um espaço de convivência, usado para descanso e para estudantes namorarem. Idealizado como o encontro perfeito entre sentimento e razão, o Memorial Darcy Ribeiro, construído na UnB (Universidade de Brasília), não poderia ter nome melhor: beijódromo. O lugar foi inaugurado nesta segunda-feira (6) pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O prédio vai abrigar todo o acervo do antropólogo e educador Darcy Ribeiro, que também fundou a universidade. O pitoresco apelido foi dado para um dos anfiteatros do edifício, que é dedicado aos estudantes. O presidente da Fundação Darcy Ribeiro, Paulo Ribeiro, lembrou que o antropólogo tinha apenas 34 anos quando começou a projetar a UnB. Depois de pronta, ele e o arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, teriam pedido à universidade uma área que abrigasse toda a sua obra - já naquela época era previsto o beijódromo. - Na companhia de Lelé, [ambos] sonharam e projetaram o beijódromo em cada detalhe. Darcy desejava que os alunos, depois das aulas, pudessem namorar e ver as estrelas. O prédio do beijódromo tem dois andares, em uma área total de 2.000 metros quadrados. Por fora, a construção lembra uma mistura de nave espacial e oca indígena. No interior, há um espelho d'água, salas de aula e uma biblioteca com mais de 30 mil exemplares que pertenciam ao antropólogo e à sua primeira esposa, Berta Gleizer Ribeiro. O presidente Lula, que pariticpou da inauguração, disse que Darcy foi um "pensador ousado e com coragem de ter ideias próprias sem pedir licença". - O beijódromo, com esse nome tão pitoresco [...] reflete também o lado humano de Darcy Ribeiro. E entre os arquitetos brasileiros, nenhum melhor do que Lelé, pela sua história ligada tanto a Darcy quando a UnB para dar a forma definitiva ao sonho do antropólogo que olhava para os índios imaginando que o Brasil do futuro poderia aprender com eles. A obra custou R$ 8,5 milhões sendo R$ 1,7 milhões financiados pela Fundação Darcy Ribeiro e os R$ 6,8 milhões restantes pelo governo federal. O complexo no qual os quase 29 mil alunos da universidade poderão "se pegar" deveria ter sido entregue no dia 26 de outubro, quando Darcy completaria 88 anos, mas atrasos adiaram a inauguração.
Recebido de Eduardo Rocha www.casawaratgoias.blogspot.com

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

EDUARDO GALEANO: el libro de los abrazos


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"Sí, sí, por lastimado y jodido que una esté, siempre puede uno encontrar contemporáneos en cualquier lugar del tiempo y compatriotas en cualquier lugar del mundo. Y cada vez que eso ocurre, y mientras eso dura, uno tiene la surte de sentir que es algo en la infinita soledad del universo: algo más que una ridícula mota de polvo, algo más que un fugaz momentito."

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DIREITOS HUMANOS EM DEBATE: SEMINÁRIO


FAZER-SE(R)

"[...] estamos num momento na vida...no qual o ser humano começa a admitir a ideia de que ele mesmo é um perpétuo processo, que não é um ser, mas um fazer-se, e que, como tudo o que se está fazendo, muda."
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(Édouard Glissant: Introducción a una poética de lo diverso)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A arte das musas: "o fetichismo na música" (Theodor W. Adorno)



"[...] a música constitui, ao mesmo tempo, a manifestação imediata do instinto humano e a instância própria para o seu apaziguamento. Ela desperta a dança das deusas, ressoa da flauta de Pã, brotando ao mesmo tempo da lira de Orfeu, em torno na qual se congregam saciadas as diversas formas do instinto humano. Toda vez que a paz musical se apresenta perturbada por excitações bacânticas, pode-se falar em decadência do gosto. Entretanto, se desde o tempo da noética grega a função disciplinadora da música foi considerada um bem supremo e como tal se manteve, em nossos dias, certamente mais do que em qualquer outra época histórica, todos tendem a obedecer mais cegamente à moda musical, como aliás acontece igualmente em outros setores. Contudo, assim como não se pode qualificar de dionísica a consciência musical contemporânea das massas, da mesma forma pouco têm a ver com o gosto artístico em geral as mais recentes modificações desta consciência musical. O próprio conceito está ultrapassado. A arte responsável orienta-se por critérios que se aproximam muito do conhecimento: o lógico e o ilógico, o verdadeiro e o falto. [...']. Se perguntarmos a alguém se 'gosta' de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiremos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar. [...] o critério de julgamento ''e o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos. [...] poder-se-ia perguntar: para quem a música de entretenimento serve ainda como entretenimento? Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais apara o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silência que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigência. [...] Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é óbvio também que já ninguém é capaz de ouvir. [...]."


(Theodor W. Adorno - Ueber Fetischcharakter Fetischchrakter in der Musik und die Regression des Hoerens, 1963).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ambiguidade

Elogio a tentativa de não racionalização e no fundo, bem no fundo, está escancarado: tenho pavor de perder o controle. Então penetro o ser de cores, de melodia, de novos ares e de poesia, de 'inspiros' e 'expiros', as vezes disfarçadamente sussurrados, mas talvez tudo numa pretensa tentativa obsessiva de disfarçar o que não posso dominar. Supor que toda a aparência de descontrole advém da tentativa desenfreada e neurótica de controle de tudo o que respiro. Me enclausuro. Me fecho nos silenciados do falar sem parar, nas contradições do que foi dito e do que se pensou, nos atos falhos percebidos logo após pronunciados. Assim é verdade o que dizia S.F., nenhum humano consegue guardar um segredo. Se os lábios se calam, ele se trai por inteiro, se denuncia por todos os poros. Mas odeio demonstrar vulnerabilidade. E aí me fecho. Me enclausuro em torres e subo em pedestal. Maldito medo. E essa é uma tentativa de admitir o medo para me livrar dele.

sábado, 27 de novembro de 2010

O eu e o id: segunda teoria pulsional


O mal-estar reside no fato de que ao mesmo tempo em que a instância psíquica supereu possibilita a ligação do sujeito com a cultura, leis, sociedade, também é responsável pelo sentimento de culpa, frustração e exigências inalcançáveis que nós impomos a nós mesmos...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Alain Badiou: sobre la reinvención del amor


La reinvención del amor:

–Usted es uno de los pocos filósofos contemporáneos que ha introducido en su reflexión algo único, es decir, el amor. Usted repite a menudo que es preciso reinventar el amor. ¿Cómo se hace eso?

–El amor es un gesto muy fuerte porque significa que hay que aceptar que la existencia de otra persona se convierta en nuestra preocupación. Mi idea sobre la reinvención del amor quiere decir lo siguiente: puesto que el amor se refiere a esa parte de la humanidad que no está entregada a la competencia, al salvajismo; puesto que, en su intimidad más poderosa, el amor exige una suerte de confianza absoluta en el otro; puesto que vamos a aceptar que ese otro esté totalmente presente en nuestra propia vida, que nuestra vida esté ligada de manera interna a ese otro, pues bien, ya que todo esto es posible ello nos prueba que no es verdad que la competitividad, el odio, la violencia, la rivalidad y la separación sean la ley del mundo.

El amor está amenazado por la sociedad contemporánea. Esa sociedad bien quisiera sustituir el amor por una suerte de régimen comercial de pura satisfacción sexual, erótica, etc. Entonces, el amor debe ser reinventado para defenderlo. El amor debe reafirmar su valor de ruptura, su valor de casi locura, su valor revolucionario como nunca lo hizo antes. No hay que dejar que el amor sea domesticado por la sociedad actual –que siempre busca domesticarlo–. En otros tiempos, las sociedades clericales y tradicionales buscaron domesticarlo por el matrimonio y la familia. Hoy se busca domesticar al amor con una mezcla de pornografía libre y de contrato financiero. Pero debemos preservar la potencia subversiva del amor y apartarlo de esas amenazas. Y ello es extensivo a otras cosas: el arte debe también apartarse de la potencia del mercado, la ciencia igualmente. Allí donde hay un pensamiento humano activo y desinteresado hay un combate para liberarlo de los intereses.

–Usted también dice que el amor es un proceso de verdad.
–El amor saca a la luz lo que es una diferencia. En el amor aceptamos ponernos de a dos para explorar no ya lo que creían los románticos, es decir, la fusión, sino lo que es aceptar la diferencia del otro, aceptarla apasionadamente.
El amor es todo lo contrario del individualismo que nos proponen. Se nos propone una soberanía del individuo, pero en realidad el individuo sólo es soberano de sus propios intereses. En cuanto hacemos algo interesante dejamos de ser soberanos. Si realizamos una demostración matemática los otros matemáticos vendrán a verificar que es cierta, dependemos de ellos. En el amor ocurre lo mismo. La soberanía es compartida con la presencia del otro. La idea de la soberanía individual es pobre porque excluye las actividades interesantes de la vida humana. El individuo se vuelve creador cuando acepta dejar de ser soberano.






segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tomo II – Manifesto pelo amor: o antimanual de autoajuda

Como encontrar e reconhecer a sua alma gêmea?

Em Brida, Paulo Coelho manda que procuremos um ponto de luz logo sobre o ombro esquerdo.. talvez direito. Brincadeiras a parte, como bons adultos racionais devemos nos informar, antes de qualquer coisa, do número da conta bancária do sujeito. Aí já teremos um bom indício e livrai-nos de tentação e de todo o mau. Assim, pouco importa a fantasia e o desejo sensível. Tudo se resume aos cálculos, números, planilha, por-no-gráfico. Não necessidade do erótico, ele requer imaginação demais. Fique apenas com a imagem-ação. Não pergunte quem é. Nem adianta perguntar mesmo, a essa pergunta as pessoas sempre respondem o que fazem. Quem é? “Sou médico”. Legal... Poderia ter continuado.. Qual a especialidade? E então, como diria uma boa anedota, aprendeu tanto sobre o lóbulo direito que sequer imagina existir um esquerdo também. De igual forma, não olhe nos olhos, somente o cartão de visitas.

Ok, paremos então com as piadas, se você quiser encontrar e reconhecer sua alma gêmea, que tal comprar um espelho? Olhe bem, no fundo dos olhos. Talvez você veja o ponto de luz descrito pelo nosso membro da academia brasileira de letras. Agora, se você quiser realmente saber-se amando, dê uma olhadinha na Crônica do Amor, do Arnaldo Jabor: “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

[...] Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.”. Embora se costume dizer que amor é prosa e sexo é poesia, acreditamos que o amor é a junção da loucura com a poesia. Amamos um outro não porque é bonito ou feio, porque gosta de rock ou samba, mas pela sensação de des-cobrimento do nosso próprio ser. Portanto, passe a racionalizar menos e a sentir mais, o jeito como sorri, o jeito como olha, os calafrios, a vontade de viver, de alegria, de constante mutação, re-des-cobrimento.
Sobre o telefone:

Sente-se ao lado do telefone e espere. Não durma, ele pode ligar. Também não tire o telefone do gancho para ver se realmente está funcionando. Ele pode ligar. E o tempo parece que não para, demora a passar. E então, o telefone toca. O coração dispara. O pescoço fica tomado de sangue. Mas mãos gelam e, contraditoriamente, suam frio, muito frio.

- Alô, Joana? Aqui é a fulana, tudo bem? Vamos ao cinema hoje?

- Ai amiga.. gostaria tanto.. mas é que hoje, hoje,... (e se começa a pensar numa desculpa).. é que.. preciso cuidar do meu gato, que está com uma enxaqueca, acho, o coitado não para de miar. Por sinal, começou a chorar agora, preciso ir.. depois te ligo. Beeeeeeeijo...

E aí ela volta a pensar, tomara que ele não tenha ligado nesse exato minuto.. Não, não, a linha teria chamado. Mas esse treco de chamar baixinho funciona mesmo? E continuou a esperar.
Agora vai a dica: prefira morrer na praia a começar a nadar. Vai que sempre aparece depois um salva-vidas para jogar uma boia... Quando o cidadão tá afim, ele nunca vai te deixar esperando, acredite. Ele irá atrás independentemente de qualquer empecilho. E se ele não tiver seu número? A lista telefônica tem. E se não souber seu nome? Alguém saberá. Ele dará um jeito, você querendo ou não. Descobrirá os locais que você frequenta, criará coincidências. E sempre nos vem a mente: e se ele não tiver coragem? Ele tem, se tiver afim, tem coragem, pode apostar. Talvez até exista uma exceção, mas provavelmente não é você. E de mais a mais, se não tiver coragem, tampouco vale a pena. Quando um cara tiver afim, pode saberá, acredite. Portanto, saia de perto do telefone e vá fazer algo que te apaixone.

Comprometimento: e quanto aos caras casados?
É, bem sabemos, provavelmente ele te prometeu tudo, desde largar a mulher até uma viagem juntos, certo? Te ama infinitamente, mas não tem coragem de deixar a esposa, os filhos.. jura com os pés juntos que não ama mais a esposa, mas somente a você, correto? Sinceramente, fique longe dos casados, nunca se sabe quando um fling vira um thing.. ou seja, caso um flerte pode virar uma paixão. Não falamos por consideração moral, religiosa, bons costumes. Falamos porque se deve ter amor próprio, antes de qualquer outro. Alguém já conheceu um homem que realmente largou a mulher pela amante? Ah, sim, a amiga da amiga da amiga da amiga. E por acaso também ainda se acredita em papai noel e coelhinho da páscoa? Jo no creo em brujas, pero que las hay, las hay? No, No. Se você vier a se apaixonar, irá se arrepender...

A continuar no tomo III. Espera as III se reunirem novamente, sob uma lua cheia nada qualquer.

domingo, 21 de novembro de 2010

1968: Chico Buarque

"O velho sem conselhos

De joelhos
De partida
Carrega com certeza

Todo o peso

Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor

A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira

Que ele não brincou

Me diga agora
O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar



O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívidas, sem saldo

Sem rival

Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me diz que sempre se escondeu

Não se comprometeu

Nem nunca se entregou

E diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar
Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar



O velho vai-se agora

Vai-se embora

Sem bagagem

Não se sabe pra que veio

Foi passeio

Foi Passagem

Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me é franco

Mostra um verso manco

De um caderno em branco

Que já se fechou

Me diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar

Não

Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar"


(O Velho - Chico Buarque, 1968)

Dedico ao amanhecer de hoje, ao "que" de indígena norte-americano e aos que estiveram, souberam, leram e interpretaram, conforme suas próprias declarações.

sábado, 20 de novembro de 2010

Tomo I - Manifesto pelo amor: o antimanual de autoajuda




Tudo começou numa mesa de bar. Três mulheres ao som de Djavan. Por (L.), (B.) e (F.), um manifesto em vários tomos-novela, dedicado a todas as amigas que nos ligam durante a madrugada, manhã, tarde e noite. Obviamente que as inspirações não são transcendentais. Aqui, calhou de, em uma noite de belíssima lua cheia, ouvirmos a música “Se”, do Djavan. Já prestaram a devida atenção na letra? Vale a pena, irá se surpreender.. talvez eu leve a sério, mas você disfarça... Ao mesmo tempo em que ouvíamos essa música, o assunto que sempre termina em patifaria miúda, como diria (F.) se voltou ao recorrente questionamento que sempre se escuta:

- Sim, estou solteira.
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- Você está sozinha? Ah, não se preocupe, logo irá encontrar alguém...
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- Estou solteira... não sozinha...
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- Então não entendi.. solteira, sozinha, tanto faz, são sinônimos mesmo, ué.

Ok, logo vai entender, vamos explicar, aos poucos. Esse é apenas o tomo I de um manifesto pelo amor. Não é um texto de autoajuda. Nem pudera. Quem está perdido não quer ajuda e só pode ajudar a se perder. Mas o que não queremos é beijar sapos esperando que virem príncipe encantados (leia-se: mergulhar em romances somente por certa carência, que, por esse motivo, estão fadados a morrer). In fact, não acreditamos em alma gêmea, “feitos um para o outro”, “não posso viver sem você”, ou então, como cantou Adriana Calcanhoto: “avião sem asa, fogueira sem brasa...sou eu, assim sem você”, ou, ainda, como diria Carla Bruni: “Je suis ton pile, tu es mes faces, toi mon nombril et moi ta glace – eu sou tua coroa e tu minha faze, tu és meu umbigo e eu teu gelo”. Sim, sem você eu vivo. Talvez sofro, mas vivo. E aí o sopro.

Antes de entrarmos nas subdivisões, por hora (hoje), gostaríamos apenas de dizer que as palavras “solteiro” e “sozinho” não são sinônimas. Primeiro porque ninguém nunca está sozinho, embora muitas vezes nos sentimos sós (então aprenda a roubar a vida. Já diria Lou Salomé: “ouse..ouse tudo!...acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la!). E de mais a mais, ser solteiro não é ruim. É um estar consigo mesmo, descobrir-se por inteiro, colocando-se sempre aberto ao amor, na loucura e na poesia.

... a continuar, muito brevemente... hoje, finalizamos como Lou Salomé.. (o assunto mudou quando a mesa se aumentou...).

Ouse, ouse...ouse tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
(Lou Andreas-Salomé)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carta de Buenos Aires 2010


Carta de Buenos Aires, Reunião Internacional da Casa Warat


Buenos Aires, una noche fría a finales de octubre de 2010


Carta literária do Encontro Anual da Casa Warat, ocorrido nos findos dias de outubro, do ano de 2010 (dois mil e dez), en “Mi Buenos Aires, tierra florida”. A reunião começou um dia após o Cabaré Macunaíma, realizado nos arredores de Maipú. Na capital argentina, o frio era marcante e o vento deixava ainda mais gélidas as noites ébrias. Na envolvente mistura de calor humano e frio porteño, ainda inebriados pela noite em Cabaré, deu-se início a reunião.

Estában Isabela, con su hermoso pelo rubio, Leilane, con sus belos ojos pintados, Mariana con su pelo rojo claro y sus 19 años, y Jaqueline, con su pelo nero, como los de Paula. Quizás era de ellas que hablava Chico Buarque quando escribió la canción “João e Maria” ("a noiva do caubói era você além das outras três…"). Ah si, estában también los chicos: Levy, con su buen humor y su abrazo colectivo, André, con su barba, sus 20 años y su sensibilidad, Eduardo, con sus rizos pero sin su sombrero porteño, Leopoldo, con el cuidado con los otros que solo él lo tiene, argentino que habla palabras que todos las compreendem. Y claro, estaba nuestro queridíssimo Luis: lleno de energia, de projectos, com sus ideas increíbles, su poder de congregar personas y de instaurar una atmosfera mágica al su rededor. Brindava a todos palavras estéticas y afectivas que, como siempre, nos encantavam y nos nutrían a todos.

O local escolhido: El Gato Viejo. No meio do improvável e do impossível, fez-se um restaurante em delírio na antigua estación de tren, no atelier de Carlos Regazzoni. Levy pede uma garrafa de vinho, quer apresentar a todos “Angelica Zapata”. Alguns preferem refrigerante, como Isa, Leilane e Mariana. Antes de chegarem os pratos, Leopoldo lança a primeira pergunta para instigar a reflexão: ¿qué nos une?

Jaqueline logo pega papel, pedacinhos de uma cartolina amarela, cheirando a tabaco, anteriormente cortados, e distribui para todos que estão na mesa, para que possam escrever suas reflexões. As respostas, que saem de forma fragmentada, complementam-se. Leopoldo lê os bilhetes escritos em espanhol, Jaqueline aqueles em português.

A resposta era polifônica, com argentinos hablando português y brasileños falando em espanhol, mas parecia ressoar uma só voz. O que nos une? La vontad de construir un mondo en donde cada uno es un encontro con los otros. Nos une la búsqueda. Pela realização livre do espírito. Pela intersubjetividade perdida na modernidade. Por uma nova sociedade, mais humana e menos castradora. Por puertas hacia nuevos mundos. Por afinar sensibilidades. Pela despinguinização dos espíritos dos estudantes e por um reconhecimento que não precisa de mitos, teorias, hermenêutica e lei para se realizar. Nos une el deseo de transformar. A crença no poder das alterações moleculares. Nos une la afectividad y la necessidad de construir un mundo diferente.

Nos une a recusa da desumanização e a esperança de mostrar que é possível viver afetivamente com os outros. Nos une a leveza das relações que se constituem como um respeitoso entre-nós. Nos une a inquietação perante o mundo e a tentativa constante para melhorá-lo e nos melhorar como seres humanos sensíveis. Nos une el interactuar entre nosostros para enriquecernos en nuestros espíritos para sermos mejores personas y brindarnos a nuestros semejantes.

Nos une a busca do entendimento de nós mesmos a partir do Outro e a busca do entendimento do Outro a partir de nós mesmos. Tomar o Outro a partir de nós mesmos. O Outro como uma extensão do Eu. A exsurgência do entre. A aurora da sensibilidade. A nascente do sensível. Nos une la tentación de unir/nos en una subjetividad que nos pertenezca para sustener/nos. No nos une el amor sinó el espanto (Borges). Nos une a vontade de um pluri-verso de significações voltadas sempre ao novo, à constante transformação. Nos une a sensibilidade, sabermos que não estamos sós, mas juntos pela construção da vida carnavalizada e repleta de sentimento de amor.

Nos une a tentativa de fazer triunfar a alegria sobre a tristeza, a pulsão de vida em um mundo em que prevalece a pulsão de morte. Nos unimos para compreender e transformar a pedagogia, enquanto momento de descobrir e redescobrir a nós mesmos e o Outro, numa perspectiva criativa, emancipatória, amorosa, erótica e transformadora. Qué nos une es el sentimiento de querer ser no un “yo” o un “otro”, sinó un “entre”. Una relación, un devir.

Pausa. O primeiro prato chegou: peru, já passado por outras mesas e bocas, temperado com cenoura, café e chocolate. Regazzoni cria as receitas de forma espontânea e plástica. Era o prato frio, depois viriam os quentes. Warat elogia o vinho. André descobre que é de uma safra de 1995. Levy e André tiram foto com o vinho, que não é tomado em taças convencionais, mas em pequenos copos de vidro. Tudo era inesperado e surrealista, como tinha de ser. Leopoldo, entonces, hace la segunda pregunta: ¿qué nos molesta?

Nos molesta el poder, el paradigma racionalista, el robo de la sensibilidad. Nos molesta o desejo pelo consumo, o fazer-se no consumo. Os micro-fascismos. A reverência a tradições vazias, a estética da forma burocrática de destruição do eu pelo enquadramento a padrões, hábitos copiados, sonhos pasteurizados, vidas vazias e o hedonismo que não transcende a forma. Nos molesta a insensibilidade, a indiferença. O sentir-se sozinho em lugares cheios. Nos molesta a pressa com que vive, sem se prestar atenção ao que se sente e ao que o outro sente. Nos molesta a repressão do espírito em todas as sua manifestações.

Nos molesta a idéia de degraus invisíveis que nos afastam – pois paramos de nos ver como iguais, como humanos. Nos molestan las divisiones, las separaciones, las etiquetas. Nos molesta la falta del deseo para perseguir una passión que nos mueva el corazón. Nos molesta o uni-verso estático e imutável, o que não tem devir. A tentativa de transformar sentimento em racionalidade, a modernização que transforma humanos em objetos homogeneos e pasteurizados.

Nos molesta uma vida sem poética, sem sonho, sem imaginação, sem criatividade. Nos molesta el egoísmo, la falta de solidariedad. Nos molesta o imperativo da razão, uma razão fria, cartesiana, que nos amputou a sensibilidade, que nos anestesiou a todos.

Segunda pausa. O segundo prato chegou: em forma de pato, vindo direto da cozinha para nossa mesa, sem escala e sem escolha. Depois veio polvo e também javali. Levy acende o charuto. André, o cachimbo. Leilane, o cigarro. Bééééhhh… Em meio à fumaça dos sonhos e à voz inebriante da mulher mais divertida e fogosa do recinto, entovam-se cantos líricos y abrazos colectivos. As luzes apagadas incendiavam delírios cabaréticos. Havia muitas cores, nas esculturas, nas paredes da sala, nos olhares trocados, nos livros espalhados, nas cidades internas.

Un despliegue de sensasiones diarios que se desdoblaran y hablaran con figuras en lenguajes del amor. Eram velas que dançavam um samba infinito, em meio à cidade do tango. Era la sensasión de estar delante un mar totalmente desconocido de colores diversos y que permite percibir una línea en el horizonte, sin que sea possible identificar su inicio y tampoco su fin. Em Buenos Aires encontrou-se esse mar. Um delírio? Sólo para los que no creen en los devenires, para los que se quedan en la racionalidad hermetica, cerrada en si misma. Sólo para aquellos que no perciben que, si no hay un “entre”, entonces están solos y nada són.

Cartografamos sentimentos, devires em meio à noite estrelada. Sensasiones fuertes y lindas, de alteridad y fraternidad. Luces, musica, danza, poesia, abrazos, besos y emoción. Reconheceram-se, desde logo, pelo olhar. Aquilo não tinha fronteiras, a amizade. Nenhuma língua ou sotaque seria capaz de impedir o entendimento, e o sentimento. O encontro puro. Sutil. O “entre” que se formou. O olhar bastava. A vontade bastava. A alegria bastava, assim como o sentimento de vida. Estava vivo. Juntaram-se a nós Inês, Glória, Marta Gama, André Coppeti, Alexandre da Rosa, Albano Pepe. Nem todos fisicamente, mas a nós se uniam pelo sentimento, presença essa que é ainda mais vivaz.

Todos formaban un grán rizoma, em que se diluem as fronteiras entre o virtual e o real. E rapidamente construíram-se idéias de esperança. Não havia censuras e o acolhimento foi completo. Reinava, soberano, o apetite de mudar, de amar, de viver. Não poderia existir construção vazia em meio tão fecundo. Naqueles papeles amarillos despejaram-se desejos comuns, que todos compartilhavam sem saber, mas que podiam intuir, sentir. Verdadeiro encontro. Revolução molecular.

A cidade ainda chovava em luto, mas a alegria reinava absoluta na Casa que construía esperança. A Casa que não tem uma casa. Não tem porque não precisa ser física. Ela é em qualquer lugar, onde se estiver, onde se quiser. En qualquer lugar donde se creea en en poder transformador de la sensibilidad. Nossa casa é movil, é nômade. Ela dança em ritmo de samba. Dança tango, flamenco y mismo la musica gitana. É uma fusão de cores, de sons, paladares e sentidos. É pura sensibilidade e está sempre aberta para quien crea en la revolución de un abrazo. De um beso. Quien así creer, entenderá (sentirá) essa Casa.

A nossa Casa é a anti-casa. O inverso do tijolo racional, do cimento solidificante, do concreto estático, da parede segregadora, do teto hermético, do chão geométrico, da porta com trancas, da janela com grades. A negação da casa cartesiana, morada da Razão, essa insustentável, estúpida e inválida habitação.

A nossa Casa é a Utopia, no sentido literal da palavra: o lugar nenhum. Ao mesmo tempo, é um eterno devir de imaginações poéticas, de possibilidades do que foi, do que nunca é e do que pode vir-a-ser. É a continuidade do eu no outro. Declaramos que o ser-em-si-e-para-si está morto. A Vida se dá no ser-com-outro, no ser-para-outro, no ser-entre. E ela não admite racionalização, solidificação, objetificação e reificação. A Casa é a nossa resposta a um mundo no qual a Vida se tornou utópica. A nossa Casa é às avessas: não somos nós quem nela moramos, mas é ela quem em nós habita.

Substitui-se o tijolo pela sensibilidade, o cimento pelo abraço, o concreto pelo beijo, a parede pela poesia, o teto pelo tato, o chão pela arte, a porta pelo outro e a janela pelo olhar. Constrói-se a casa waratiana, a casa nômade. Y que está abierta a todos los que en ella quiseren entrar.
Carta literária e patafísica, lida e passada numa noite fria, em meio a catacumbas, ao inesperado som de um piano…

sábado, 13 de novembro de 2010

El Secreto De Sus Ojos

Como se hace para vivir una vida vacía

B. - Me diga o que achou.
I. - Bom, é um romance, não? E num romance não é preciso dizer a verdade. Nem sempre é verossímil.
B. - Sim... não, não...o que não é verossímil?
I. - Ah, Benjamín! Aquela parte, quando o cara parte para Jujuy. Ele chorando, como se fosse uma perda! E ela correndo pela plataforma como se estivesse perdendo o amor de sua vida, tocando-se as mãos através do vidro, como se fossem uma única pessoa! Ela chorando, como se soubesse que lhe esperava um destino medíocre, sem amor. Quando caindo sobre os trilhos, como se quisesse gritar-se um amor que nunca tinha confessado!
B. - Sim... mas foi assim, ou não foi assim?
I. - E se foi assim, por que não me levou com você? Seu lerdo.
I. - E como vai continuar a história?
[...]
B. - Eu não quero deixar passar tudo de novo. Como pode ser? Como é possível que não fiz nada? Há vinte e cinco anos que me pergunto e há vinte e cinco anos que respondo a mim mesmo: foi outra vida, já passou. Não pergunte, não pense. Não foi outra vida, foi esta! É esta. Agora que entendi isso, como se faz para viver uma vida vazia? Como se faz, para viver uma vida cheia de "nada"? Como se faz?
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Uma das partes mais belas do filme mas, ao mesmo tempo, me põe a refletir. Passou-se uma vida inteira, vinte e cinco anos, uma vida de vida vazia. E aí, vazia porque no amor, a matemática muda: 2 - 1 não é = 1, mas "0".
Tocam-se as mãos como se fossem uma única pessoa e assim, quando um parte, perde-se "metade". Por mais que me toque profundamente, não acredito na possibilidade de esse amor que perdura no tempo, à distância e somente um sentimento avassalador de perda do que se deixou para trás. Arrependimento. A cada segundo mudamos, nós mesmos e o outro. Já não somos mais o que somos, não somos absolutamente nada, mas um conjunto que se transforma e reinventa em todos os milésimos de segundo. Se eu já não mais sou eu, o outro tampouco é outro.
E ainda assim, ama-se a imagem congelada de um outro no tempo. Captura-se. Mata-se o outro definindo-o num algo que ele não mais é e talvez nunca tenha sido, mas que apenas minha imaginação criou. Passou-se vinte e cinco anos amando aquele "picolé" que provavelmente já derreteu ou já saiu da validade.
O gosto mudou...
O paladar se refinou...
Choro, então, meu próprio vazio existencial, que nesse momento muito tem me incomodado. Mas nunca de amor congelado. E por isso sempre digo que a maioria das pessoas nunca vão voltar para um ex. Pode-se até voltar, mas somente até perceber que a nova pessoa, que também está sempre em constante transformação, não mais corresponde à imagem perdida no tempo e no espaço que mantínhamos em nossa cabeça. E por isso, o mais importante de tudo é viver os sentimentos, sem definí-los, sem matá-los, sem medo. E assim, sentir até sufocar. E viver intensamente significa tão somente viver a intensidade dos sentimentos. Significa permitir-se. Se abrir para sentir. Porque será impossível sentí-los no futuro, após se ter embarcado no trem.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Confundia-se. Quase autista, pegou a cópia d'um livro que nunca leu, que nunca leria. Uma caneta brinde que manifestava a vontade de não funcionar. No mesmo instante em que (f.) cantava a bênção de seu orixá, o samba ressoava ao fundo e se fundia à canção de solidão entoada involuntariamente pelos lábios de (I.). A melancolia somente foi se dissipando aos pouco e muito lentamente. Elle percebia o vazio do próprio ser, numa dita psicanálise coletiva que a fez perceber que ela não era mais a sedutora que se perdia no espelho dos próprios signos. E aí se lembrou d'uma conversa em que lhe foi dito que a segunda possibilidade de se conhecer um eu-nunca-eu é quando se sente. Ou, como se pode preferir, quando se ama. Embora o ama somente pode definir e cerrar o sentimento que, quando não aprisionado em um signo, dança tango, samba, rock, canta, envolve, desenvolve... com maior ou menor intensidade. Aparece um outro que nunca será amado-sentido por si, mas pela sensação de descobrimento que permite a que sente, fazendo com que percebemo-nos nossas reservas inconscientes, vontades, sonhos, fantasias e uma possibilidade de um eu-renovado, jogado no tempo e no espaço, no nada-todo, no futuro, num vir-a-ser algo. Uma vontade. E assim, tornou-se elle autista alegre e melancólica, que sonhou acordada mas que dorme na realidade que não se recorda ao despertar, sem perder a calma e a tranquilidade ante a perspectiva. Pois elle sabia, fingia que sabia, fingia que não sabia. No fundo, nada nunca soube, pois sempre duvidou de tudo. Justamente, a dúvida de não saber se sabe ou se não sabe é que a-tormenta e faz chover. Um brinde regado a Mercedes Sosa - Todo cambia.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os "dois" irmãos


"- Entendo demais, Ivan: a gente quer gostar com as entranhas e com o ventre, tu o disseste magnificamente e estou muitíssimo feliz por te ver com tanta vontade de viver - exclamou Aliócha. - Acho que todos no mundo devem, antes de tudo, passar a amar a vida.
- Passar a amar mais a vida que o sentido dela?
- Forçosamente é assim, amar antes que venha a lógica, como tu dizes, forçosamente antes que venha a lógica, e só então compreenderei também o sentido. É isso que há muito tempo eu já entrevia. [...]"
(Os irmãos Karamázov - Fiódor Dostoiévski)

sábado, 6 de novembro de 2010

Senti-me só. Acordei. Senti-me só. Levantei.
Senti-me só. Vi uma luz no fim do horizonte. Um sol de dia claro, de uma manhã tranquila.
Um olho que não desviava de meu olhar. Sentiu-me. Piscou. Siga. Siga-me.
Senti-me só. Tão só. Sozinha.
Em meio a tudo. Tornei o abstrato em concreto. Defini.
E matei tudo. Não havia mais nada. Senti-me só.
Eu mesma não era nada. E se não era nada. Era tudo. Era. E se era tudo, tornei-me nada.
Senti-me só. Só. Tão só. Sozinha.
Me embriaguei de vida. Mergulhei no abismo da poesia.
Me afoguei. Solucei. Senti-me só.
Me perdi para me encontrar. E aí, me encontrando, me perdi. Senti-me só.
Sente-me só. Sinta-me só.
Faça-me companhia. Afague-me. Diga-me que tudo passa, que basta sentir.
Acalenta-me. E jamais serei tua.
Vou com o vento. Voo com o vento. Sem rumo.
Sinto. E podes ser meu vento. Leva-me. Lave-me. E aí jamais te deixarei.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Juan Manuel Serrat - Penelope

Penélope, con su bolso de piel marrón
y sus zapatos de tacón y su vestido de domingo...

...se sienta en un banco en el andén
y espera a que llegue el primer tren meneando el abanico.

Dicen en el pueblo que un caminante paró su reloj
una tarde de primavera.

"Adiós, amor mío, no me llores,
volveré antes que de los sauces caigan las hojas.

Piensa en mí...por tí."

Pobre infeliz, se paró su reloj infantil
una tarde plomiza de abril cuando se fue su amante.

Se marchitó en tu huerto hasta la última flor,
no hay un sauce en la calle Mayor para...
...tristes a fuerza de esperar, sus ojos parecen brillar
si un tren silba a lo lejos...

...uno tras otro los ve pasar, mira sus caras,
les oye hablar, para ella son muñecos...
...que el caminante volvió y la encontró en su banco de pino verde.

La llamó: "Penélope, mi amante fiel, mi paz,
deja ya de tejer sueños en tu mente.
Mírame, soy tu amor, regresé."
Le sonrió, con los ojos llenitos de ayer,
"no era así tu cara ni tu piel,
tú no eres quien yo espero".

Y se quedó...sentada en la estación...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010




Sento-me em uma mesa em meio a calçada da rua Rodriguez Peña para tentar colocar num papel o imenso turbilhão de pensamentos freneticamente calmos que desassossegam meu eu por inteiro. A usual insônia me proibiu de pregar os olhos na vontade do pouco descanso que poderia ter na noite de domingo. Após mudar de posição em minha cama por cinco vezes, em uma tentativa não vitoriosa de dormir, decidi por bem parar de forçar meu corpo que se animava cada vez mais. Convencida, levantei-me e, depois de vestida com a roupa de sair, afofei os travesseiros e encostei-me confortavelmente para continuar a leitura do livro os irmãos Karamázov. Num instante, apenas num piscar de olhos, percebi que o relógio que aparentemente cinco minutos antes marcava meia noite, já soava as badaladas das duas horas da madrugada.

Meus dedos que firmemente seguram a caneta agora correm o papel sem obedecer meus pensamentos. Não temo esquecimento. Os silenciados é que fazem erigir a beleza do texto. Não me atreveria a tornar tudo claro. Jamais poderia tentar fazer com que os desconexos se tornassem conexos, pois aí sim não fariam sentido algum.

Ainda sem pregar os olhos, me dirigi ao aeroporto para embarcar no voo das quatro horas e meia. E dentro do avião, a pequena tentativa de retomar a leitura foi cancelada pela chegada de uma nova amizade de alguém que, como eu, não consegue manter a língua em seu suposto lugar, es decir, dentro da boca. Como diria a hiena do Rei Leão, em boca fechada não entra mosca. Duas horas de linguagem tão próxima e, ao mesmo tempo, tão diferente. Começo a novamente me familiarizar com um antigo novo. O avião pousou por volta das seis e meia, mas somente deixei o aeroporto uma hora depois, pronta para inteirar-me das últimas notícias da cidade, enquanto apreciava a vista. Política, economia, etc. E o táxi chegou rápido demais no destino para que eu pudesse alimentar satisfatoriamente a minha ânsia de querer saber cada vez mais. Despedi-me do motorista e somente larguei a mala no saguão de casa para enfim perceber que meu estômago já estava quase colado com superbonder em minhas costas.

Parti em busca de café-da-manhã, sem seguir caminho certo, mas já tão certa do local aonde minhas pernas iriam me levar. No caminho, esqueço-me de tudo. Esqueço-me de mim. Esqueço-me da fome. Algumas cinco quadras. Incontáveis árvores de folhas verde-jade que, em por alguns instantes, deixam os pequenos raios de sol passar por entre os galhos. Respiro a saudade que me aperta o peito dessa cidade que permanece igualmente intocável no tempo de minhas lembranças e, ainda assim, completamente renovada. Cominho em frente às lojas ainda fechadas da avenida Alvear e, de olhos semicerrados, subo a pequena escada de degraus curtos que me colocará diante da magnífica praça em frente ao local escolhido. Paro na banca da esquina para comprar o diário do dia. O Clarín está escondido, me diz o vendedor. Pago o jornal e me sento em uma mesa fora no café La Biela. E então, não consigo esconder o sorriso que meus lábios esboçam ao olhar para esse lugar que, embora tão culturalmente diferente, tem espaço cativo no meu coração. Em pouco tempo, o jornal sobre a mesa passa a dividir espaço com torradas, iogurte e um saboroso café colombiano. Entre um gole e outro, me divirto com a charge e me perco em pensamentos ao ler algumas manchetes importantes.

Contemplo o dia ensolarado por mais alguns instantes até decidir me levantar e passar no supermercado para levar algumas coisas para minha, por pouco tempo, nova cada. Nem hotel nem apartamento. Uma mistura de hotel e apartamento que converge num chamado apart e que precisa urgentemente de coisas para ficar aconchegantemente um lar. Subo a rua Rodriguez Peña e me sento imobilizada em frente ao café que faz divisa com o mercado e que me convida gentilmente para sentar em uma das mesas da calçada, acompanhada por outra boa xícara de café quente e de uma verde garrafa de vidro d’água dos andes, dessas garrafas que já quase não vemos mais por aí e que cada vez mais cedem lugar às tão sem charme garrafas pet. Perco a noção do tempo.

Algumas páginas de papel branco são manchadas permanentemente de tinta azul. Vários bon dia, com aquele d fechado e quase estridente que responde alegremente a felicidade de um recomeço de dia das pessoas que passam ao meu lado. Alguns que caminham descompromissadamente. Outros em passos largos denunciam um possível atraso para o início da jornada de trabalho. Senhoras empurram carrinhos da feira de frutas e legumes da semana, com seus cabelos cuidadosamente presos.

Encho novamente a taça com água fresca e aproveito para respirar profundamente. Guardo a caneta e o papel para poder explorar algumas ruas em minha volta, algumas já pisadas, outras não, a maioria quase escondida pela sombra da copa das árvores da Recoleta que insistem em crescer mais do que os antigos prédios com portas de madeira. E assim, nesse vai não vem o dia passa e eu somente volto a escrever por volta das duas horas da madrugada de quarta-feira, já dia do censo. [...] a continuar.

sábado, 23 de outubro de 2010

Suspiro


(em Annecy, não me pergunte, não conheço...)


Inicio este pequeno suspiro inspirada por uma dúvida que me assola por um certo tempo. A conversa da madrugada de ontem me fez novamente refletir. Nenhum ponto final. Então expiro. Porque enquanto eu viver, respiro. Inspiro. Expiro. Pronta para novamente inspirar. Tudo num ciclo sem fim. E suspiro. Em todos os momentos, suspiro. E essa mania louca de fugir do assunto, me diriam se estivesse escrevendo a redação para o vestibular. Provavelmente não passaria. Não haveria início, desenvolvimento e conclusão. As histórias não se iniciam no início. Muitas vezes, o início se dá quando percebe-mo-nos mergulhados por inteiro. Molhados. Encharcados. E o fim? De que fim se fala? Como se conclui uma história? São sempre inconclusas. São jogadas ao vento, largadas no tempo. A semente é levada pela abelha junto ao pólen, não se sabe se vai cair e, se cair, se irá germinar. Mas se eu tiver que escolher um início, mesmo que não seja um início, diria que me assola se pensamentos germinantes a pergunta que me costumam fazer: “Você conhece determinado lugar?”. E a dúvida. Como responder? As vezes estive nesse lugar. Outras não. Alguns eu vi por fotos, por filmes, pela memória dos outros. Mas se estive ou se não estive, posso dizer que efetivamente conheço? Essas indagações nunca fizeram parte das minhas respostas. Me demandaram demasiadas explicações. Além disso, diriam: “A chata”. E realmente não gosto muito dessa definição, o chato não roda, não move, não anda, não muda. E também, essa dúvida me faz pensar em várias outras. Me conheço? Naturalmente, ou melhor, normalmente – para que haja um cuidado com as palavras empregadas – espero, de mim e dos outros, determinado comportamento. Como se houvesse possibilidade de se ser linear. Pura besteira. Uma cadeia estímulo-resposta que construímos pela observação de fatos passados e que deveria se repetir. Assim, admitimos uma, embora frágil, previsibilidade. Obviamente que essas respostas aos estímulos não são imutáveis. De fato, são tão variadas que me fazem desacreditar que conheço a mim. Justamente por isso, refleti a respeito da conversa de ontem. No passado – um ontem que pode ou não ter sido ontem –, espantava-se descobrir que algumas pessoas especulavam sobre minha vida. Justifico. Pensava em qual poderia ser o interesse de se especular sobre a vida de uma pessoa que sempre fez questão se tornar a privacidade pública. Claramente que, entre os ditos, sempre ficam os silenciados. É bem provável que as palavras em demasia servem se escudo que camufla o que não se quer dizer ou o que não se pode dar a saber, ou mesmo o que não se pode conceber, mesmo que apenas naquele segundo. Por muito que se exponha (expire), muito mais se inspira, se esconde. Entre olhares e silêncios, a base do iceberg só é visível depois de ter rompido o casco do navio, pelo menos foi assim com o Titanic. E esse mistério da revelação do ainda não re-velado, ou seja, do que ainda está velado, aguça a curiosidade alheia. Para voltar ao assunto lugares, já que me permiti uma pequena pausa de fuga, acredito que não posso, nem nunca poderei, dizer que conheço. Pelo menos sem estar sendo desonesta. Mesmo em se tratando do local onde moro, onde morei. Tenho alma de cigana peregrina, nada conheço. E por isso que digo que as frutas por vezes estão mais doces, por vezes menos. As vezes estão podres. As vezes brilham tanto que parecem ter sido enceradas. Mas o paladar também muda. Se refina. E assim as cidades também. Conhecer pontos turísticos, mapas, guias. E o que se conheceu? Nada, mas se confirmou o que estava catalogado. Realmente – o real –, a monalisa está no louvre. E ainda por cima, sem flash, se pode fotografá-la (para depois se mostrar aos outros que nos invejaram, por absoluta certeza). Prefiro não conhecer. Prefiro me perder em pequenas ruelas que sequer sei o nome. Sentir aromas diferentes no ar. Sentir-me outra. Visitar pequenos cafés e me deliciar vendo os nativos em suas rotinas diárias. E se eu voltar nessa mesma rua, provavelmente vou achar que nunca havia estado nela antes. O paladar se refinou. Talvez a próprio maça tenha se adocicado, dependendo da estação do ano. E me perco. Aí, então, volto a inspirar. Expiro. E nunca deixo de suspirar.


sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Por uma rotina divertida


(Kush)


Se a gente faz da diversão uma rotina, o divertido perde seu ar de novidade e se transforma em rotina entediante ou a rotina se torna divertida e ludicamente cheia de vida? E se a gente parar de resmungar o tempo todo e começar a vislumbrar os inesperados de todos os instantes, que nunca podem ser completamente calculados, como uma forma de surpresa, que na infância sempre é o melhor tipo de diversão, não estariamos vivendo uma rotina de novidades divertidas? Acho que sim. Brindo aos que vivem fazendo da vida uma poesia sem fim.

Leilane's result: Diadorim
“Se a outra só tem no olhar, a cigana dissimulada é você encarnada. Espírito livre (e, às vezes, rancoroso) você não se deixa mostrar por completo. É perigosa e desnorteia aqueles a sua volta, há quem te confunda com o próprio capeta. Mas quanto... quanto amor você não suscita!”
Take Quiz

Normalmente não gosto de quizzes, mas não é que esse é dos bons...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cultura do Controle: A maldição do colar

Cultura do Controle: A maldição do colar: " Na rua quase deserta de um bairro pobre, passeia uma moça com um colar de diamantes, cuja função ornamental não é capaz de justificar m..."

A grande moral

André Lux
http://tudo-em-cima.blogspot.com/

http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1652


Que a revista Veja não passa de um panfleto da extrema direita tupiniquim, atualmente a serviço da campanha de José Serra, ninguém tem mais dúvida. Por isso não vou chover no molhado. Com o advento da internet e o surgimento da blogosfera progressista, as mentiras, os factóides e a hipocrisia de Veja passaram a ser desmascaradas em questão de dias, depois horas e agora... minutos!

A galera do twitter estava de olho esperando o que o pasquim dos Civita ia aprontar contra Dilma e... bingo: aborto! O objetivo é claro, mostrar que Dilma é "do mal", a favor de "matar criancinhas", além de mentirosa e incoerente.



Mas é mais um tiro no pé. Bastou Veja divulgar a capa "bombástica" que alguém pesquisou e achou outra capa da mesma revista, de setembro de 1997, que trazia uma matéria séria sobre o tema, amplamente favorável à liberação do aborto, com confissões abertas inclusive feitas por celebridades! Confira:



"NÓS FIZEMOS ABORTO"

Mulheres de três gerações enfrentam a lei, o medo
e o preconceito e revelam suas experiências


- Andréa Barros, Angélica Santa Cruz e Neuza Sanches

ELAS RESOLVERAM FALAR. Quebrando o muro de silêncio que sempre cercou o aborto, oito dezenas de mulheres procuradas por VEJA decidiram contar como aconteceu, quando, por quê. Falaram atrizes, cantoras, intelectuais mas também operárias, domésticas, donas de casa. Falaram de angústia, de culpa, de dor e de solidão. Também falaram de clínicas mal equipadas, de médicos sem escrúpulos, de enfermeiras sem preparo, de maridos e namorados ausentes. A apresentadora Hebe Camargo contou que, quando era uma jovem de 18 anos, ficou grávida do primeiro namorado e foi parar nas mãos de uma curiosa que fez a cirurgia sem anestesia nem cuidado. A atriz Aracy Balabanian, a Cassandra do Sai de Baixo, ficou grávida quando estava chegando aos 40 anos e dando fim a um longo relacionamento. Resolveu fazer o aborto, convencida de que a criança não teria um bom pai nem ela seria capaz de criá-la sozinha. Metalúrgica da Força Sindical, a mineira Nair Goulart, 45 anos, fez dois abortos nos anos 70 por motivos econômicos. Ela e o marido, também operário, ganhavam pouco, viviam num quarto de despejo e não teriam meios de educar nenhum filho.

Quando o Congresso brasileiro debate a regulamentação de uma legislação que autoriza a realização de aborto apenas em caso de estupro e de risco de vida para a mãe como está previsto no Código Penal desde 1940 , a disposição das mulheres que falaram a VEJA não é apenas oportuna, mas também corajosa. Embora o 1º Tribunal do Júri de São Paulo, o maior do país, já tenha completado mais de uma década sem condenar nenhuma mulher em função do aborto, a legislação estabelece para esses casos penas que vão de um a três anos de prisão. E a maioria delas não fez aborto pelos motivos previstos em lei, mas porque, cada uma em seu momento, cada uma com sua história pessoal, considerou as circunstâncias e concluiu que interromper a gravidez era uma saída menos dolorosa do que ter um filho que não poderia criar. (a reportagem continua neste link).



Ah, outra coisa importante: a blogosfera também desencavou uma reportagem da revista TRIP de nº 41, na qual Soninha Francine declarou que já tinha feito aborto e que era favorável à descriminalização. (link aqui).



Detalhe: Soninha, ex-esquerdista e atual neocon renascida, é uma das coordenadoras de campanha de José Serra (PSDB). Ela é cotada para ser Ministra de Serra, se ele vencesse, e atua na campanha sobretudo na internet. E é pela internet, através de emails em massa, que partidários de Serra espalham a campanha de ódio e difamação contra Dilma.

Se não me engano, a denúncia foi feita pelo blog Os Amigos do Presidente Lula, que fez questão de comentar: "Nós não somos como eles, e não vamos apedrejar Soninha. O próprio cristianismo ensina que, quem não tiver pecados, que atire a primeira pedra. Vamos só denunciar essa hipocrisia, essa má-fé, o falso testemunho, e esse uso do nome do Senhor em vão, com fins eleitoreiros, pelos partidários de José Serra."

E agora, José Serra? Será que sua esposinha vai sair por aí gritando aos quatro ventos que a Hebe Camargo e Soninha gostam de "matar criancinhas"? Quem viver, verá...

Monica Serra contou ter feito aborto, diz ex-aluna

Reportagem tentou ouvir mulher de candidato tucano por dois dias, sem sucesso
MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA

O discurso do candidato à Presidência José Serra (PSDB) de que é contra o aborto por "valores cristãos", que impedem a interrupção da gravidez em quaisquer circunstâncias, é questionado por ex-alunas de sua mulher, Monica Serra.
Num evento no Rio, há um mês, a psicóloga teria dito a um evangélico, segundo a Agência Estado, que a candidata Dilma Rousseff (PT), que já defendeu a descriminalização do aborto, é a favor de "matar criancinhas".
Segundo relato feito à Folha por ex-alunas de Monica no curso de dança da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), a então professora lhes contou em uma aula, em 1992, que fez um aborto quando estava no exílio com o marido.
Depois do golpe militar no Brasil, Serra se mudou para o Chile, onde conheceu a mulher. Em 1973, com o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder, o casal se mudou para os Estados Unidos.

OUTRO LADO
A Folha tentou falar com Monica Serra durante dois dias para comentar o relato das ex-alunas, sem sucesso.
Um dia depois do debate da TV Bandeirantes, no domingo, 10, a bailarina Sheila Canevacci Ribeiro, 37, postou uma mensagem em seu Facebook para "deixar a minha indignação pelo posicionamento escorregadio de José Serra" em relação ao tema.
Ela escreveu que Serra não respeitava "tantas mulheres, começando pela sua própria mulher. Sim, Monica Serra já fez um aborto". A mensagem foi replicada em outras páginas do site e em blogs.
"Com todo respeito que devo a essa minha professora, gostaria de revelar publicamente que muitas de nossas aulas foram regadas a discussões sobre o seu aborto traumático", escreveu Sheila no Facebook. "Devemos prender Monica Serra caso seu marido fosse [sic] eleito presidente?"
À Folha a bailarina diz que "confirma cem por cento" tudo o que escreveu. Sheila afirma que não é filiada a partido político. Diz ter votado em Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) no primeiro turno. No segundo, estará no Líbano, onde participará de performance de arte.
Se estivesse no Brasil, optaria por Dilma Rousseff (PT). Sheila é filha da socióloga Majô Ribeiro, que foi aluna de mestrado na USP de Eva Blay, suplente de Fernando Henrique Cardoso no Senado em 1993. Majô foi pesquisadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP, fundado pela primeira-dama Ruth Cardoso (1930-2008).
Militante feminista, Majô foi candidata derrotada a vereadora e a vice-prefeita em Osasco pelo PSDB.
A socióloga disse à Folha estar "preocupada" com a filha, mas afirma que a criou para "ser uma mulher livre" e que ela "agiu como cidadã".
Sheila é casada com o antropólogo italiano Massimo Canevacci, que foi professor de antropologia cultural na Universidade La Sapienza, em Roma, e hoje dirige pesquisas no Brasil.
A Folha localizou uma colega de classe de Sheila pelo Facebook. Professora de dança em Brasília, ela concordou em falar sob a condição de anonimato.
Contou que, nas aulas, as alunas se sentavam em círculos, criando uma situação de intimidade. Enquanto fazia gestos de dança, Monica explicava como marcas e traumas da vida alteram movimentos do corpo e se refletem na vida cotidiana.
Segundo a ex-estudante, as pessoas compartilhavam suas histórias, algo comum em uma aula de psicologia.
Nesse contexto, afirmou, Monica compartilhou sua história com o grupo de alunas. Disse ter feito o aborto por causa da ditadura.
Ainda de acordo com a ex-aluna, Monica disse que o futuro dela e do marido, José Serra, era muito incerto.
Quando engravidou, teria relatado Monica à então aluna, o casal se viu numa situação muito vulnerável.
"Ela não confessou. Ela contou", diz Sheila Canevacci. "Não sou uma pessoa denunciando coisas. Mas [ela é] uma pessoa pública, que fala em público que é contra o aborto, é errado. Ela tem uma responsabilidade ética."

São Paulo, sábado, 16 de outubro de 2010
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1610201011.htm

Colaboraram LIGIA MESQUITA e MARCUS PRETO , de São Paulo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Les chansons de Lennon sous coffret zen: me de um pouco de verdade


"Les Beatles, encore et toujours. L'année 2009 avait été celle de la parution événementielle de l'ensemble des enregistrements du groupe britannique enfin mis techniquement au plus près de leur splendeur originelle. L'année 2011 devrait être celle de Paul McCartney, dont le catalogue phonographique va être réédité, avec dès le 8 novembre la sortie de Band on the Run (1973), succès planétaire de son groupe post-Beatles, The Wings. Mais, pour l'heure, l'année 2010 est celle de John Lennon (1940-1980), avec un ensemble de parutions - depuis début octobre - supervisé par sa veuve, Yoko Ono, portant un nom de campagne politique : "Gimme Some Truth" (donnez-moi un peu de vérité). [...]

John Lennon Signature Box, 1 coffret de 11 CD, Capitol/EMI. Albums disponibles individuellement (sauf celui avec les singles et les inédits).

Power To The People-The Hits, 1 CD EMI."

(http://www.lemonde.fr/culture/article/2010/10/18/les-chansons-de-lennon-sous-coffret-zen_1427777_3246.html)


domingo, 17 de outubro de 2010

À VIDA, AOS AMORES, AOS AMIGOS, À FELICIDADE, AO NOVO, À ESPERA, À BUSCA, AO TODO

"A humanidade se sutenta em ficções. Mas, são ficções formosas das quais não podemos prescindir. Constituem nossa essência. Desse modo, nossas fantasias representadas artisticamente pela literatura, pela música, pela ciência, pela filosofia, pela religião, pela linguagem e pelo desejo, instituem o mundo que recebemos, que herdamos e que reproduzimos e que recheamos de novas fantasias, ficções e, sobretudo, de novas interpretações de fantasias antigas. [...] Em definitivo, preferimos amar, ainda que isso comporte sempre sofrimento, a não saber que amamos." (J.)

Postado por Leilane e Isabela, que acabou de confirmar presença em B.A comigo!!!!!! Cadê a FEFE???????? Tá faltando tu!!!!

sábado, 16 de outubro de 2010

O riso do samba

Ao evocar o riso para desestabilizar o instituído, Herrera também nos contou que a violência cultural não pode ser simplificada aos atos de dominação do colonizador, mas também ao próprio naturismo exaltado do colonizado. Esquecida a luta por condições materiais e imateriais o sensualismo torna-se uma busca ingênua da diferença pura, que serve para, em sentido oposto, reafirmar a superioridade do colonizador. Por isso a relevância de movimentos culturais como a antopofagia de Oswald de Andrade ou o movimento contracultural Tropicália. Não se rompe com a bossa tradicional. Ela é fecundida de jazz. O tradicional une-se ao experimento. Talvez por isso, em uma constante antropofagia, samba ainda vai nascer...

Desde que o samba é samba - Caetano Veloso

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sísifo


(kush)


Se bastasse amar, as coisas seriam muito simples. Quanto mais se
ama, mais o absurdo se consolida. Não é de modo algum por falta
de amor que Don Juan vai de mulher em mulher. É ridículo
representá-lo como um iluminado em busca do amor total. Mas é
até porque ele as ama com igual arrebatamento e a cada vez com
toda inteireza, que lhe é preciso repetir esse dom e esse
aprofundamento. Por isso cada uma espera trazer-lhe o que
ninguém nunca lhe deu. A cada vez elas se enganam
profundamente e só são bem-sucedidas e lhe fazer sentir a
necessidade dessa repetição. "Enfim," exclama uma delas, "eu lhe
dei o amor". Vamos nos espantar com Don Juan rindo disso:
"Enfim? Não," diz ele, "apenas uma vez mais". Por que seria preciso
amar raramente para amar muito?
Don Juan é triste? Isso não é verossímil. Mal terei de apelar para a
crônica. Esse riso, a insolência vitoriosa, essa agitação e o gosto
pelo teatro, tudo é claro e alegre. Todo ser saudável tende a se
multiplicar. Da mesma forma Don Juan. Mas, além disso, os tristes
têm duas razões para sê-lo: eles ignoram ou esperam. Don Juan
sabe e não espera. Ele faz pensar nesses artistas que conhecem
seus limites, não passam deles jamais e, nesse intervalo precário
em que seu espírito se instala, têm todo o desembaraço dos
mestres. E está bem aí o gênio: a inteligência que conhece suas
fronteiras. Até a fronteira da morte física, Don Juan ignora a tristeza.
Desde o instante em que ele sabe, seu riso explode e leva perdoar
tudo: Ele foi triste no tempo em que esperou. Hoje, na boca dessa
mulher, ele reencontra o gosto amargo e reconfortante da única
ciência. Amargo? Se tanto: essa necessária imperfeição que torna
possível a felicidade!
É um grande logro tentar ver em Don Juan um homem que bebeu
no Eclesiastes. Porque nada mais é vaidade, para ele, senão a
esperança de uma outra vida. Ele o prova, visto que a joga contra o
próprio céu. O pesar do desejo perdido no divertimento, esse lugarcomum
da impotência, não lhe diz respeito. Isso combina bem com
Fausto, que muito acreditou em Deus para se vender ao diabo. Para
Don Juan, a coisa é mais simples.

(A. Camus, in O mito de Sísifo)

terça-feira, 28 de setembro de 2010



Ela dança em águas límpidas. Translúcidas. Encobrem-na; descobrem-na. O movimento gracioso. Os desequilíbrios. Tudo aquilo que é formoso. Quando tropeça, a água se move por inteira. Circulares pequenos que ao final convergem nas ondas da denúncia do imperfeito. Mas ela não para de queimar fogo que, de calor, ardo o corpo da defesa do olhar do outro. E sinto. Com a ponta dos dedos; pinto. De olhos fechados; brado. E imagino. Represento. Crio a imagem tua que não és tu. Sou eu. A luz dança púrpura.

domingo, 26 de setembro de 2010

Na neblina desapareceu



A inspiração não a abandonou. Nem por um segundo, nem por um momento. Ela somente não mais compartilhou, pois densa demais se tornou. O ar sólido se petrificou. Congelou naquele pulmão que queimava brasa avermelhada. Virou tormenta e escorregou como pesadas gotas. Maculou a pureza da terra cada vez mais molhada. E de repente.. não mais que de repente, ela não mais suportou. E ela fugia. Corria do que, dessa vez, sabia. E num piscar de olhos, a neblina a escondeu. Ela desapareceu.