sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A arte das musas: "o fetichismo na música" (Theodor W. Adorno)



"[...] a música constitui, ao mesmo tempo, a manifestação imediata do instinto humano e a instância própria para o seu apaziguamento. Ela desperta a dança das deusas, ressoa da flauta de Pã, brotando ao mesmo tempo da lira de Orfeu, em torno na qual se congregam saciadas as diversas formas do instinto humano. Toda vez que a paz musical se apresenta perturbada por excitações bacânticas, pode-se falar em decadência do gosto. Entretanto, se desde o tempo da noética grega a função disciplinadora da música foi considerada um bem supremo e como tal se manteve, em nossos dias, certamente mais do que em qualquer outra época histórica, todos tendem a obedecer mais cegamente à moda musical, como aliás acontece igualmente em outros setores. Contudo, assim como não se pode qualificar de dionísica a consciência musical contemporânea das massas, da mesma forma pouco têm a ver com o gosto artístico em geral as mais recentes modificações desta consciência musical. O próprio conceito está ultrapassado. A arte responsável orienta-se por critérios que se aproximam muito do conhecimento: o lógico e o ilógico, o verdadeiro e o falto. [...']. Se perguntarmos a alguém se 'gosta' de uma música de sucesso lançada no mercado, não conseguiremos furtar-nos à suspeita de que o gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não gostar. [...] o critério de julgamento ''e o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos. [...] poder-se-ia perguntar: para quem a música de entretenimento serve ainda como entretenimento? Ao invés de entreter, parece que tal música contribui ainda mais apara o emudecimento dos homens, para a morte da linguagem como expressão, para a incapacidade de comunicação. A música de entretenimento preenche os vazios do silência que se instalam entre as pessoas deformadas pelo medo, pelo cansaço e pela docilidade de escravos sem exigência. [...] Se ninguém mais é capaz de falar realmente, é óbvio também que já ninguém é capaz de ouvir. [...]."


(Theodor W. Adorno - Ueber Fetischcharakter Fetischchrakter in der Musik und die Regression des Hoerens, 1963).

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ambiguidade

Elogio a tentativa de não racionalização e no fundo, bem no fundo, está escancarado: tenho pavor de perder o controle. Então penetro o ser de cores, de melodia, de novos ares e de poesia, de 'inspiros' e 'expiros', as vezes disfarçadamente sussurrados, mas talvez tudo numa pretensa tentativa obsessiva de disfarçar o que não posso dominar. Supor que toda a aparência de descontrole advém da tentativa desenfreada e neurótica de controle de tudo o que respiro. Me enclausuro. Me fecho nos silenciados do falar sem parar, nas contradições do que foi dito e do que se pensou, nos atos falhos percebidos logo após pronunciados. Assim é verdade o que dizia S.F., nenhum humano consegue guardar um segredo. Se os lábios se calam, ele se trai por inteiro, se denuncia por todos os poros. Mas odeio demonstrar vulnerabilidade. E aí me fecho. Me enclausuro em torres e subo em pedestal. Maldito medo. E essa é uma tentativa de admitir o medo para me livrar dele.

sábado, 27 de novembro de 2010

O eu e o id: segunda teoria pulsional


O mal-estar reside no fato de que ao mesmo tempo em que a instância psíquica supereu possibilita a ligação do sujeito com a cultura, leis, sociedade, também é responsável pelo sentimento de culpa, frustração e exigências inalcançáveis que nós impomos a nós mesmos...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Alain Badiou: sobre la reinvención del amor


La reinvención del amor:

–Usted es uno de los pocos filósofos contemporáneos que ha introducido en su reflexión algo único, es decir, el amor. Usted repite a menudo que es preciso reinventar el amor. ¿Cómo se hace eso?

–El amor es un gesto muy fuerte porque significa que hay que aceptar que la existencia de otra persona se convierta en nuestra preocupación. Mi idea sobre la reinvención del amor quiere decir lo siguiente: puesto que el amor se refiere a esa parte de la humanidad que no está entregada a la competencia, al salvajismo; puesto que, en su intimidad más poderosa, el amor exige una suerte de confianza absoluta en el otro; puesto que vamos a aceptar que ese otro esté totalmente presente en nuestra propia vida, que nuestra vida esté ligada de manera interna a ese otro, pues bien, ya que todo esto es posible ello nos prueba que no es verdad que la competitividad, el odio, la violencia, la rivalidad y la separación sean la ley del mundo.

El amor está amenazado por la sociedad contemporánea. Esa sociedad bien quisiera sustituir el amor por una suerte de régimen comercial de pura satisfacción sexual, erótica, etc. Entonces, el amor debe ser reinventado para defenderlo. El amor debe reafirmar su valor de ruptura, su valor de casi locura, su valor revolucionario como nunca lo hizo antes. No hay que dejar que el amor sea domesticado por la sociedad actual –que siempre busca domesticarlo–. En otros tiempos, las sociedades clericales y tradicionales buscaron domesticarlo por el matrimonio y la familia. Hoy se busca domesticar al amor con una mezcla de pornografía libre y de contrato financiero. Pero debemos preservar la potencia subversiva del amor y apartarlo de esas amenazas. Y ello es extensivo a otras cosas: el arte debe también apartarse de la potencia del mercado, la ciencia igualmente. Allí donde hay un pensamiento humano activo y desinteresado hay un combate para liberarlo de los intereses.

–Usted también dice que el amor es un proceso de verdad.
–El amor saca a la luz lo que es una diferencia. En el amor aceptamos ponernos de a dos para explorar no ya lo que creían los románticos, es decir, la fusión, sino lo que es aceptar la diferencia del otro, aceptarla apasionadamente.
El amor es todo lo contrario del individualismo que nos proponen. Se nos propone una soberanía del individuo, pero en realidad el individuo sólo es soberano de sus propios intereses. En cuanto hacemos algo interesante dejamos de ser soberanos. Si realizamos una demostración matemática los otros matemáticos vendrán a verificar que es cierta, dependemos de ellos. En el amor ocurre lo mismo. La soberanía es compartida con la presencia del otro. La idea de la soberanía individual es pobre porque excluye las actividades interesantes de la vida humana. El individuo se vuelve creador cuando acepta dejar de ser soberano.






segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tomo II – Manifesto pelo amor: o antimanual de autoajuda

Como encontrar e reconhecer a sua alma gêmea?

Em Brida, Paulo Coelho manda que procuremos um ponto de luz logo sobre o ombro esquerdo.. talvez direito. Brincadeiras a parte, como bons adultos racionais devemos nos informar, antes de qualquer coisa, do número da conta bancária do sujeito. Aí já teremos um bom indício e livrai-nos de tentação e de todo o mau. Assim, pouco importa a fantasia e o desejo sensível. Tudo se resume aos cálculos, números, planilha, por-no-gráfico. Não necessidade do erótico, ele requer imaginação demais. Fique apenas com a imagem-ação. Não pergunte quem é. Nem adianta perguntar mesmo, a essa pergunta as pessoas sempre respondem o que fazem. Quem é? “Sou médico”. Legal... Poderia ter continuado.. Qual a especialidade? E então, como diria uma boa anedota, aprendeu tanto sobre o lóbulo direito que sequer imagina existir um esquerdo também. De igual forma, não olhe nos olhos, somente o cartão de visitas.

Ok, paremos então com as piadas, se você quiser encontrar e reconhecer sua alma gêmea, que tal comprar um espelho? Olhe bem, no fundo dos olhos. Talvez você veja o ponto de luz descrito pelo nosso membro da academia brasileira de letras. Agora, se você quiser realmente saber-se amando, dê uma olhadinha na Crônica do Amor, do Arnaldo Jabor: “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

[...] Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.”. Embora se costume dizer que amor é prosa e sexo é poesia, acreditamos que o amor é a junção da loucura com a poesia. Amamos um outro não porque é bonito ou feio, porque gosta de rock ou samba, mas pela sensação de des-cobrimento do nosso próprio ser. Portanto, passe a racionalizar menos e a sentir mais, o jeito como sorri, o jeito como olha, os calafrios, a vontade de viver, de alegria, de constante mutação, re-des-cobrimento.
Sobre o telefone:

Sente-se ao lado do telefone e espere. Não durma, ele pode ligar. Também não tire o telefone do gancho para ver se realmente está funcionando. Ele pode ligar. E o tempo parece que não para, demora a passar. E então, o telefone toca. O coração dispara. O pescoço fica tomado de sangue. Mas mãos gelam e, contraditoriamente, suam frio, muito frio.

- Alô, Joana? Aqui é a fulana, tudo bem? Vamos ao cinema hoje?

- Ai amiga.. gostaria tanto.. mas é que hoje, hoje,... (e se começa a pensar numa desculpa).. é que.. preciso cuidar do meu gato, que está com uma enxaqueca, acho, o coitado não para de miar. Por sinal, começou a chorar agora, preciso ir.. depois te ligo. Beeeeeeeijo...

E aí ela volta a pensar, tomara que ele não tenha ligado nesse exato minuto.. Não, não, a linha teria chamado. Mas esse treco de chamar baixinho funciona mesmo? E continuou a esperar.
Agora vai a dica: prefira morrer na praia a começar a nadar. Vai que sempre aparece depois um salva-vidas para jogar uma boia... Quando o cidadão tá afim, ele nunca vai te deixar esperando, acredite. Ele irá atrás independentemente de qualquer empecilho. E se ele não tiver seu número? A lista telefônica tem. E se não souber seu nome? Alguém saberá. Ele dará um jeito, você querendo ou não. Descobrirá os locais que você frequenta, criará coincidências. E sempre nos vem a mente: e se ele não tiver coragem? Ele tem, se tiver afim, tem coragem, pode apostar. Talvez até exista uma exceção, mas provavelmente não é você. E de mais a mais, se não tiver coragem, tampouco vale a pena. Quando um cara tiver afim, pode saberá, acredite. Portanto, saia de perto do telefone e vá fazer algo que te apaixone.

Comprometimento: e quanto aos caras casados?
É, bem sabemos, provavelmente ele te prometeu tudo, desde largar a mulher até uma viagem juntos, certo? Te ama infinitamente, mas não tem coragem de deixar a esposa, os filhos.. jura com os pés juntos que não ama mais a esposa, mas somente a você, correto? Sinceramente, fique longe dos casados, nunca se sabe quando um fling vira um thing.. ou seja, caso um flerte pode virar uma paixão. Não falamos por consideração moral, religiosa, bons costumes. Falamos porque se deve ter amor próprio, antes de qualquer outro. Alguém já conheceu um homem que realmente largou a mulher pela amante? Ah, sim, a amiga da amiga da amiga da amiga. E por acaso também ainda se acredita em papai noel e coelhinho da páscoa? Jo no creo em brujas, pero que las hay, las hay? No, No. Se você vier a se apaixonar, irá se arrepender...

A continuar no tomo III. Espera as III se reunirem novamente, sob uma lua cheia nada qualquer.

domingo, 21 de novembro de 2010

1968: Chico Buarque

"O velho sem conselhos

De joelhos
De partida
Carrega com certeza

Todo o peso

Da sua vida
Então eu lhe pergunto pelo amor

A vida inteira, diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira

Que ele não brincou

Me diga agora
O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar
Nada
Só a caminhada
Longa, pra nenhum lugar



O velho de partida
Deixa a vida
Sem saudades
Sem dívidas, sem saldo

Sem rival

Ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me diz que sempre se escondeu

Não se comprometeu

Nem nunca se entregou

E diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar
Nada
E eu vejo a triste estrada
Onde um dia eu vou parar



O velho vai-se agora

Vai-se embora

Sem bagagem

Não se sabe pra que veio

Foi passeio

Foi Passagem

Então eu lhe pergunto pelo amor

Ele me é franco

Mostra um verso manco

De um caderno em branco

Que já se fechou

Me diga agora

O que é que eu digo ao povo

O que é que tem de novo

Pra deixar

Não

Foi tudo escrito em vão
E eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar"


(O Velho - Chico Buarque, 1968)

Dedico ao amanhecer de hoje, ao "que" de indígena norte-americano e aos que estiveram, souberam, leram e interpretaram, conforme suas próprias declarações.

sábado, 20 de novembro de 2010

Tomo I - Manifesto pelo amor: o antimanual de autoajuda




Tudo começou numa mesa de bar. Três mulheres ao som de Djavan. Por (L.), (B.) e (F.), um manifesto em vários tomos-novela, dedicado a todas as amigas que nos ligam durante a madrugada, manhã, tarde e noite. Obviamente que as inspirações não são transcendentais. Aqui, calhou de, em uma noite de belíssima lua cheia, ouvirmos a música “Se”, do Djavan. Já prestaram a devida atenção na letra? Vale a pena, irá se surpreender.. talvez eu leve a sério, mas você disfarça... Ao mesmo tempo em que ouvíamos essa música, o assunto que sempre termina em patifaria miúda, como diria (F.) se voltou ao recorrente questionamento que sempre se escuta:

- Sim, estou solteira.
.
- Você está sozinha? Ah, não se preocupe, logo irá encontrar alguém...
.
- Estou solteira... não sozinha...
.
- Então não entendi.. solteira, sozinha, tanto faz, são sinônimos mesmo, ué.

Ok, logo vai entender, vamos explicar, aos poucos. Esse é apenas o tomo I de um manifesto pelo amor. Não é um texto de autoajuda. Nem pudera. Quem está perdido não quer ajuda e só pode ajudar a se perder. Mas o que não queremos é beijar sapos esperando que virem príncipe encantados (leia-se: mergulhar em romances somente por certa carência, que, por esse motivo, estão fadados a morrer). In fact, não acreditamos em alma gêmea, “feitos um para o outro”, “não posso viver sem você”, ou então, como cantou Adriana Calcanhoto: “avião sem asa, fogueira sem brasa...sou eu, assim sem você”, ou, ainda, como diria Carla Bruni: “Je suis ton pile, tu es mes faces, toi mon nombril et moi ta glace – eu sou tua coroa e tu minha faze, tu és meu umbigo e eu teu gelo”. Sim, sem você eu vivo. Talvez sofro, mas vivo. E aí o sopro.

Antes de entrarmos nas subdivisões, por hora (hoje), gostaríamos apenas de dizer que as palavras “solteiro” e “sozinho” não são sinônimas. Primeiro porque ninguém nunca está sozinho, embora muitas vezes nos sentimos sós (então aprenda a roubar a vida. Já diria Lou Salomé: “ouse..ouse tudo!...acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la!). E de mais a mais, ser solteiro não é ruim. É um estar consigo mesmo, descobrir-se por inteiro, colocando-se sempre aberto ao amor, na loucura e na poesia.

... a continuar, muito brevemente... hoje, finalizamos como Lou Salomé.. (o assunto mudou quando a mesa se aumentou...).

Ouse, ouse...ouse tudo!
Não tenha necessidade de nada!
Não tente adequar sua vida a modelos,
nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém.
Acredite: a vida lhe dará poucos presentes.
Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la!
Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer.
Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso:
algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!
(Lou Andreas-Salomé)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Carta de Buenos Aires 2010


Carta de Buenos Aires, Reunião Internacional da Casa Warat


Buenos Aires, una noche fría a finales de octubre de 2010


Carta literária do Encontro Anual da Casa Warat, ocorrido nos findos dias de outubro, do ano de 2010 (dois mil e dez), en “Mi Buenos Aires, tierra florida”. A reunião começou um dia após o Cabaré Macunaíma, realizado nos arredores de Maipú. Na capital argentina, o frio era marcante e o vento deixava ainda mais gélidas as noites ébrias. Na envolvente mistura de calor humano e frio porteño, ainda inebriados pela noite em Cabaré, deu-se início a reunião.

Estában Isabela, con su hermoso pelo rubio, Leilane, con sus belos ojos pintados, Mariana con su pelo rojo claro y sus 19 años, y Jaqueline, con su pelo nero, como los de Paula. Quizás era de ellas que hablava Chico Buarque quando escribió la canción “João e Maria” ("a noiva do caubói era você além das outras três…"). Ah si, estában también los chicos: Levy, con su buen humor y su abrazo colectivo, André, con su barba, sus 20 años y su sensibilidad, Eduardo, con sus rizos pero sin su sombrero porteño, Leopoldo, con el cuidado con los otros que solo él lo tiene, argentino que habla palabras que todos las compreendem. Y claro, estaba nuestro queridíssimo Luis: lleno de energia, de projectos, com sus ideas increíbles, su poder de congregar personas y de instaurar una atmosfera mágica al su rededor. Brindava a todos palavras estéticas y afectivas que, como siempre, nos encantavam y nos nutrían a todos.

O local escolhido: El Gato Viejo. No meio do improvável e do impossível, fez-se um restaurante em delírio na antigua estación de tren, no atelier de Carlos Regazzoni. Levy pede uma garrafa de vinho, quer apresentar a todos “Angelica Zapata”. Alguns preferem refrigerante, como Isa, Leilane e Mariana. Antes de chegarem os pratos, Leopoldo lança a primeira pergunta para instigar a reflexão: ¿qué nos une?

Jaqueline logo pega papel, pedacinhos de uma cartolina amarela, cheirando a tabaco, anteriormente cortados, e distribui para todos que estão na mesa, para que possam escrever suas reflexões. As respostas, que saem de forma fragmentada, complementam-se. Leopoldo lê os bilhetes escritos em espanhol, Jaqueline aqueles em português.

A resposta era polifônica, com argentinos hablando português y brasileños falando em espanhol, mas parecia ressoar uma só voz. O que nos une? La vontad de construir un mondo en donde cada uno es un encontro con los otros. Nos une la búsqueda. Pela realização livre do espírito. Pela intersubjetividade perdida na modernidade. Por uma nova sociedade, mais humana e menos castradora. Por puertas hacia nuevos mundos. Por afinar sensibilidades. Pela despinguinização dos espíritos dos estudantes e por um reconhecimento que não precisa de mitos, teorias, hermenêutica e lei para se realizar. Nos une el deseo de transformar. A crença no poder das alterações moleculares. Nos une la afectividad y la necessidad de construir un mundo diferente.

Nos une a recusa da desumanização e a esperança de mostrar que é possível viver afetivamente com os outros. Nos une a leveza das relações que se constituem como um respeitoso entre-nós. Nos une a inquietação perante o mundo e a tentativa constante para melhorá-lo e nos melhorar como seres humanos sensíveis. Nos une el interactuar entre nosostros para enriquecernos en nuestros espíritos para sermos mejores personas y brindarnos a nuestros semejantes.

Nos une a busca do entendimento de nós mesmos a partir do Outro e a busca do entendimento do Outro a partir de nós mesmos. Tomar o Outro a partir de nós mesmos. O Outro como uma extensão do Eu. A exsurgência do entre. A aurora da sensibilidade. A nascente do sensível. Nos une la tentación de unir/nos en una subjetividad que nos pertenezca para sustener/nos. No nos une el amor sinó el espanto (Borges). Nos une a vontade de um pluri-verso de significações voltadas sempre ao novo, à constante transformação. Nos une a sensibilidade, sabermos que não estamos sós, mas juntos pela construção da vida carnavalizada e repleta de sentimento de amor.

Nos une a tentativa de fazer triunfar a alegria sobre a tristeza, a pulsão de vida em um mundo em que prevalece a pulsão de morte. Nos unimos para compreender e transformar a pedagogia, enquanto momento de descobrir e redescobrir a nós mesmos e o Outro, numa perspectiva criativa, emancipatória, amorosa, erótica e transformadora. Qué nos une es el sentimiento de querer ser no un “yo” o un “otro”, sinó un “entre”. Una relación, un devir.

Pausa. O primeiro prato chegou: peru, já passado por outras mesas e bocas, temperado com cenoura, café e chocolate. Regazzoni cria as receitas de forma espontânea e plástica. Era o prato frio, depois viriam os quentes. Warat elogia o vinho. André descobre que é de uma safra de 1995. Levy e André tiram foto com o vinho, que não é tomado em taças convencionais, mas em pequenos copos de vidro. Tudo era inesperado e surrealista, como tinha de ser. Leopoldo, entonces, hace la segunda pregunta: ¿qué nos molesta?

Nos molesta el poder, el paradigma racionalista, el robo de la sensibilidad. Nos molesta o desejo pelo consumo, o fazer-se no consumo. Os micro-fascismos. A reverência a tradições vazias, a estética da forma burocrática de destruição do eu pelo enquadramento a padrões, hábitos copiados, sonhos pasteurizados, vidas vazias e o hedonismo que não transcende a forma. Nos molesta a insensibilidade, a indiferença. O sentir-se sozinho em lugares cheios. Nos molesta a pressa com que vive, sem se prestar atenção ao que se sente e ao que o outro sente. Nos molesta a repressão do espírito em todas as sua manifestações.

Nos molesta a idéia de degraus invisíveis que nos afastam – pois paramos de nos ver como iguais, como humanos. Nos molestan las divisiones, las separaciones, las etiquetas. Nos molesta la falta del deseo para perseguir una passión que nos mueva el corazón. Nos molesta o uni-verso estático e imutável, o que não tem devir. A tentativa de transformar sentimento em racionalidade, a modernização que transforma humanos em objetos homogeneos e pasteurizados.

Nos molesta uma vida sem poética, sem sonho, sem imaginação, sem criatividade. Nos molesta el egoísmo, la falta de solidariedad. Nos molesta o imperativo da razão, uma razão fria, cartesiana, que nos amputou a sensibilidade, que nos anestesiou a todos.

Segunda pausa. O segundo prato chegou: em forma de pato, vindo direto da cozinha para nossa mesa, sem escala e sem escolha. Depois veio polvo e também javali. Levy acende o charuto. André, o cachimbo. Leilane, o cigarro. Bééééhhh… Em meio à fumaça dos sonhos e à voz inebriante da mulher mais divertida e fogosa do recinto, entovam-se cantos líricos y abrazos colectivos. As luzes apagadas incendiavam delírios cabaréticos. Havia muitas cores, nas esculturas, nas paredes da sala, nos olhares trocados, nos livros espalhados, nas cidades internas.

Un despliegue de sensasiones diarios que se desdoblaran y hablaran con figuras en lenguajes del amor. Eram velas que dançavam um samba infinito, em meio à cidade do tango. Era la sensasión de estar delante un mar totalmente desconocido de colores diversos y que permite percibir una línea en el horizonte, sin que sea possible identificar su inicio y tampoco su fin. Em Buenos Aires encontrou-se esse mar. Um delírio? Sólo para los que no creen en los devenires, para los que se quedan en la racionalidad hermetica, cerrada en si misma. Sólo para aquellos que no perciben que, si no hay un “entre”, entonces están solos y nada són.

Cartografamos sentimentos, devires em meio à noite estrelada. Sensasiones fuertes y lindas, de alteridad y fraternidad. Luces, musica, danza, poesia, abrazos, besos y emoción. Reconheceram-se, desde logo, pelo olhar. Aquilo não tinha fronteiras, a amizade. Nenhuma língua ou sotaque seria capaz de impedir o entendimento, e o sentimento. O encontro puro. Sutil. O “entre” que se formou. O olhar bastava. A vontade bastava. A alegria bastava, assim como o sentimento de vida. Estava vivo. Juntaram-se a nós Inês, Glória, Marta Gama, André Coppeti, Alexandre da Rosa, Albano Pepe. Nem todos fisicamente, mas a nós se uniam pelo sentimento, presença essa que é ainda mais vivaz.

Todos formaban un grán rizoma, em que se diluem as fronteiras entre o virtual e o real. E rapidamente construíram-se idéias de esperança. Não havia censuras e o acolhimento foi completo. Reinava, soberano, o apetite de mudar, de amar, de viver. Não poderia existir construção vazia em meio tão fecundo. Naqueles papeles amarillos despejaram-se desejos comuns, que todos compartilhavam sem saber, mas que podiam intuir, sentir. Verdadeiro encontro. Revolução molecular.

A cidade ainda chovava em luto, mas a alegria reinava absoluta na Casa que construía esperança. A Casa que não tem uma casa. Não tem porque não precisa ser física. Ela é em qualquer lugar, onde se estiver, onde se quiser. En qualquer lugar donde se creea en en poder transformador de la sensibilidad. Nossa casa é movil, é nômade. Ela dança em ritmo de samba. Dança tango, flamenco y mismo la musica gitana. É uma fusão de cores, de sons, paladares e sentidos. É pura sensibilidade e está sempre aberta para quien crea en la revolución de un abrazo. De um beso. Quien así creer, entenderá (sentirá) essa Casa.

A nossa Casa é a anti-casa. O inverso do tijolo racional, do cimento solidificante, do concreto estático, da parede segregadora, do teto hermético, do chão geométrico, da porta com trancas, da janela com grades. A negação da casa cartesiana, morada da Razão, essa insustentável, estúpida e inválida habitação.

A nossa Casa é a Utopia, no sentido literal da palavra: o lugar nenhum. Ao mesmo tempo, é um eterno devir de imaginações poéticas, de possibilidades do que foi, do que nunca é e do que pode vir-a-ser. É a continuidade do eu no outro. Declaramos que o ser-em-si-e-para-si está morto. A Vida se dá no ser-com-outro, no ser-para-outro, no ser-entre. E ela não admite racionalização, solidificação, objetificação e reificação. A Casa é a nossa resposta a um mundo no qual a Vida se tornou utópica. A nossa Casa é às avessas: não somos nós quem nela moramos, mas é ela quem em nós habita.

Substitui-se o tijolo pela sensibilidade, o cimento pelo abraço, o concreto pelo beijo, a parede pela poesia, o teto pelo tato, o chão pela arte, a porta pelo outro e a janela pelo olhar. Constrói-se a casa waratiana, a casa nômade. Y que está abierta a todos los que en ella quiseren entrar.
Carta literária e patafísica, lida e passada numa noite fria, em meio a catacumbas, ao inesperado som de um piano…