segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um pé descalço





Decidi passar a tarde chuvosa lendo Pablo Gentili ao invés de me deitar no sofá para ver o filme que meu pai me trouxe ontem e que me animava muito, principalmente depois das várias indicações das amigas. Algo no livro me chamava, gritava pela minha presença. E assim, sem qualquer dúvida, decidi trocar a gargalhada certa, mas muda, por lágrimas de desespero profundo e alegria de força. Pablo começa um artigo mágico ao descrever seu passeio com o filho ao supermercado e conta que, ao ver um dos sapatos do bebe quase cair, retirou-o. Mateo ficou sentado no carrinho com apenas um sapato, apenas um pé coberto. E assim, ao andar pela rua, em todos os momentos Pablo foi alertado de que seu filho havia perdido um sapatinho. O contentamento do cuidado cedeu lugar, em pouco tempo, a um sentimento de tristeza. Na cidade do Rio de Janeiro, assim como em Florianópolis, a miséria convive com o luxo e a ostentação. O pé descalço - apenas um pé descalço - de um menino de classe média é motivo para uma excessiva preocupação, ao passo em que as milhares de crianças de dois pés descalços são esquecidas.
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"A possibilidade de reconhecer ou perceber acontecimentos é uma forma de definir os limites sempre arbitrários entre o 'normal' e o 'anormal', o aceito e o negado, o permitido e o proibido. É por isso que, enquanto é 'anormal' que um menino de classe média ande descalço, é absolutamente 'normal' que centenas de meninos de rua andem sem sapatos, perambulando pelas ruas de Copacabana pedindo esmolas.
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A 'anormalidade' torna os acontecimentos visíveis, ao mesmo tempo em que a 'normalidade' costuma ter a capacidade de ocultá-los. O 'normal' se torna cotidiano. E a visibilidade do cotidiano se desvanece (insensível e indiferente) como produto de sua tendencial naturalização.
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Em nossas sociedades fragmentadas, os efeitos da concentração de riquezas e a ampliação de misérias, diluem-se diante da percepção cotidiana, não somente como conseqüência da frivolidade discursiva dos meios de comunicação de massas (com sua inesgotável capacidade de banalizar o que é importante e sacralizar o que é trivial), mas também pela própria força adquirida por tudo aquilo que se torna cotidiano; ou seja, o 'normal'.
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Para dizer sem muitos rodeios, o que pretendo afirmar é que, hoje, em nossas sociedades dualizadas, a exclusão é invisível aos nossos olhos. Certamente, a invisibilidade é a marca mais visível dos processos de exclusão neste milênio que começa. A exclusão e seus efeitos estão aí. São evidências cruéis e brutais mostradas nas esquinas, comentadas pelos jornais, exibidas nas telas. Entretanto, a exclusão parece ter perdido a capacidade de produzir espanto e indignação em boa parte da sociedade. Nos 'outros' e em 'nós mesmos'.
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A seletividade do olhar cotidiano é implacável: dois pés descalços não são dois pés descalços. Um é um pé que perdeu o sapato. O outro é um pé que, simplesmente, não existe. Nunca existiu nem existirá. Um é um pé de uma criança. O outro é o pé de ninguém."
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(Pablo Gentili e Chico Alencar)
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Dois pés descalços são o símbolo da ameaça que se manifesta no silêncio do que está oculto, do que é ignorado e, ao mesmo tempo, temido como efeito do desespero e da pobreza, midiaticamente posto em índice de marginalidade e criminalidade.


2 comentários:

  1. I have read so many posts about the blogger lovers but this piece
    of writing is in fact a nice paragraph, keep it up.



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